sexta-feira | 15 - dezembro - 2017
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Penjing, Eugênia e Lago

Este trabalho foi desenvolvido a partir de uma muda de Eugenia myriophylla obtida em horto e atualmente com a altura de 30 cm. Devido a dificuldade de encontrar informações sobre esta espécie cabe uma pequena introdução para esclarecer as opções escolhidas no decorrer do processo.

bonsai penjing 13

A planta, da família das mirtáceas, gosta de bastante luz, mas não de sol direto nos horários de maior intensidade. Prefere clima ameno e suporta solo relativamente seco. Têm a característica de ramificar abundantemente em determinado ponto. São bastante apreciadas em topiarias comuns de jardim, para formação de cercas e maciços, pois possibilitam a formação de copas com formas bem desenhadas. De fato, a tendência da espécie em formar copas densas é enorme. Normalmente estas copas são tão cerradas que não deixam a luz do sol entrar em seu interior, o que faz com que as folhas internas sequem muito rapidamente. Para a formação de um penjing ou bonsai isto, entretanto, se mostra problemático, pois as copas tendem a crescer em sua superfície e secar em seu interior, aumentando assim o seu volume constantemente. bonsai penjing 01Esteticamente a ramificação abundante em determinado ponto é também uma característica típica dos arbustos e não das árvores antigas. A espécie, portanto, impõe um esvaziamento constante das copas com a eliminação dos ramos excessivos.

Outra característica importante da espécie é que recebendo sol em seu interior, as eugênias brotam facilmente em tronco de qualquer idade. Entretanto, demora para que o novo broto se harmonize com a espessura do antigo. O engrossamento do tronco e galhos, assim como a fixação de ramos aramados demanda mais tempo do que na maioria das espécies utilizadas para bonsai e penjing.bonsai penjing 02

Todo o trabalho desenvolvido levou em consideração estas características e pode ser resumido como um constante esvaziar da planta, aproveitando, a cada etapa, o mínimo suficiente de ramos que a planta tinha a oferecer para a formação de determinada configuração da copa. Ainda hoje me impressiona a grande quantidade de material retirado a cada poda, por vezes com ramos antigos, sem que isso altere significativamente a configuração geral da copa.bonsai penjing 03

A primeira intervenção, efetuada em setembro de 2005, foi a alteração do pivô central, realizada através de uma mudança de inclinação do tronco. Nas fotos acima, podem-se ver os cinco ramos originais bifurcados, na mesma altura do tronco. Três meses depois, após a inclinação e as devidas aramações, a configuração geral da copa já estava bastante adiantada.

bonsai penjing 04A planta me sugeria uma árvore frondosa com parte de sua copa projetada sobre um lago. Como não havia de minha parte pretensão de engrossar mais o tronco preparei o primeiro suiban com o objetivo de desenvolver um Penjing. Foi feito de cimento branco e modelado a partir de uma fôrma de gesso com a proporção de 45 x 30 cm. Também as pedras, neste primeiro momento, foram totalmente feitas de cimento, devidamente pintadas durante o processo de secagem com pigmentos resistentes a luz solar. Tendo por base os princípios de água e terra, busquei equilibrar os dois volumes dividindo-os com o conjunto das pedras.

bonsai penjing 05A princípio me pareceu satisfatório, mas esta versão não resistiu por muito tempo. O volume coeso e compacto da copa, ocupando toda a extensão do suiban, configurava uma árvore muito grande para a paisagem. Deveria optar por diminuir a árvore ou aumentar o suiban. Aumentei o Suiban (foto abaixo). Neste momento também se tornaram claros os elementos que deveriam ser harmonizados – planta, terra, pedra, água, ar e porventura um elemento escultórico para favorecer a proporção e clima que se apresentava.

Notem também que, na foto abaixo, foi eliminado um dos galhos principais da direita, sem que com isso fosse perdida a forma geral da copa.

bonsai penjing 06

As pedras claras, de tom similar ao do tronco, foram coletadas e somente as junções e assentamentos foram feitos com cimento (pintados como anteriormente, mas imitando a cor e veios das pedras utilizadas).

O movimento do conjunto foi todo voltado para a área de água. Coloquei uma pedra alta e com tampo chato ao fundo do lado direito. A idéia foi que ao redor do tampo estivesse o volume mais alto de substrato. Criou-se assim uma descida entre este ponto e o volume mais baixo da praia, deliberadamente mais próxima do plano do suiban.
Este volume mais alto de substrato foi contido por um lado pela pedra e por outro pelas raízes mais vigorosas do lado direito da eugênia, criando assim uma espécie de degrau que valoriza e justifica as raízes. Com isso o tronco ficou também um pouco mais enterrado diminuindo visualmente sua proporção.

bonsai penjing 07O suiban acima infelizmente quebrou. O recente suiban, um pouco maior, 57 x 32 cm, teve como base uma “fôrma perdida” de isopor. A espessura da placa de isopor determina a altura dos pés que se quer. Desenha-se a forma na dimensão desejada, corta-se o contorno com faca alfa, e também os buracos, que, cheios de cimento, virarão os pés. Fiz também umas canaletas em “V” para formar longarinas por toda a extensão e assim dar mais resistência.

bonsai penjing 08A borda foi feita com isopor mais fino e, por isso, flexível, de 3 mm. Inclui neste trabalho uma variação. A faixa de isopor, uma simples tira, foi cortada mais grossa (alta) na parte de trás e mais baixa na região do lago. Assim, na parte traseira, foi possível acumular mais substrato, sem perder, na visão frontal, o efeito de bandeja desejado. Tudo foi montado com cola tradicional de isopor.

Como o isopor de base, neste caso, tinha um centímetro de espessura (justamente a espessura que eu pretendia alcançar com o cimento), cortei uns círculos para resguardar os buracos de drenagem do suiban pronto, e, ao mesmo tempo, fornecerem uma referência de espessura na hora de aplicar o cimento.

OBS: Reparem no jornal sob a fôrma, importante detalhe para o cimento não colar na mesa.

bonsai penjing 09Neste trabalho fiz o desenho em cartolina antes, e pedi para um vidraceiro cortar um vidro, de 3 mm, na forma da área onde pretendia deixar o “lago”. O vido foi pintado de branco no fundo, com tinta de parede. No outros suibans anteriores a este, sempre tive grande dificuldade em criar uma superfície lisa que fosse fácil de limpar. O vidro tem se mostrado uma ótima solução.

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A seguir o reenvase.

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Texto e Fotos do autor da obra: Marcelo Duprat
Extraído de: http://www.marceloduprat.net

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